Blog da família Coutinho, com origem em Sedielos - Peso da Régua, e hoje espalhada pelo mundo. Este será um meio de comunicação entre nós e os amigos. Publicaremos também alguns artigos de interesse geral, nomeadamente sobre o nosso querido Douro.
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2006
LEMBRANDO GUEDES DE AMORIM

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Quem passar pela Régua, ali para os lados do Quartel dos Bombeiros, encontra a Rua Guedes de Amorim. Talvez a maior parte das pessoas não saiba quem foi este homem. Porém, a placa identificativa da dita rua diz que ele foi um escritor do século XX. Um jornalista e escritor prolífico, mas discreto. De facto, ele não teve a sorte de contar com publicidade agressiva nem editoras com elevado sentido de marketing... coisas que no seu tempo não se usavam muito e que ele também não quis procurar. Sabe-se que alguns dos seus escritos tiveram boa recepção do público, mas o seu êxito foi definhando, de modo que nos últimos anos da sua vida poucas pessoas falavam dele, tendo falecido quase na miséria em 11 de Março de 1979, em Lisboa.

António Guedes de Amorim nasceu em Sedielos, no pequeno e escondido lugar de Sá, a 26 de Outubro de 1901, na aurora do século XX. Vivendo a sua infância à sombra do Marão e aos pés do Rio Sermanha, que serviram de musas inspiradoras ao seu romance mais conhecido, Aldeia das Águias, cedo deixou a sua terra para trabalhar no comércio, primeiro na Régua e depois em Lisboa. Foi redactor do Século e do Século Ilustrado. Aventurou-se também na ficção, dando ao público romances, novelas e contos onde lateja uma constante inquietação social.

Na sua obra, os mais pobres e fracos lutam para sobreviver nas malhas de uma vida dura, tentando libertar-se da opressão dos mais fortes. Sem demonstrar entusiasmo pela solução marxista da luta de classes, foi contudo simpatizante da ideologia de Marx. Literariamente, embora não se confessasse adepto de nenhuma escola, alguns críticos descobrem nele alguns laivos de neo-realismo disperso pela ruralidade trasmontana e duriense e pelos ambientes urbanos do Porto e outras cidades.

O percurso ideológico e espiritual de Guedes de Amorim foi moldado por essa ternura e preocupação pelos pobres e simples, vindo a encontrar na fé cristã um sentido para a vida e um caminho para a resolução dos problemas sociais. Por isso não nos espanta que a sua vida desse uma reviravolta, do marxismo para o ideal de S. Francisco de Assis. Foi nessa fase da sua vida que nasceu a obra Francisco de Assis, Renovador da Humanidade. Como terceiro franciscano, debruçou-se sobre a actividade dos filhos espirituais do Poverello no mundo. Com eles visitou a Terra Santa, resultando dessa viagem o maravilhoso livro Jesus passou por aqui.

Quase passou despercebido, em 2001, o centésimo aniversário do nascimento deste escritor duriense. É um dever de justiça e de gratidão que se faça alguma coisa para lembrar o homem e a sua obra. O concelho da Régua tem sido honrado com a beleza dos escritos de alguns dos seus filhos, como João de Lemos, Antão de Morais Gomes e João de Araújo Correia. Praticamente da mesma geração de Guedes de Amorim, João de Araújo Correia tem recebido muitas provas da admiração que todos nós temos pela sua obra, como médico, escritor e defensor da Língua Portuguesa. São dele estas palavras preciosas acerca do romance Aldeia das Águias:

«Há, nesse romance, um alfaiate que é uma santidade, ou melhor dizendo, um achado de ternura que faria crescer água na boca a Raul Brandão. O alfaiate, que fazia bonecos de pano para as criancinhas, vai ao cemitério levar o mais bem feito a um surdo-mudinho, que lhe sorrira em vida como nenhum outro menino (...). Guedes de Amorim, filho de Raul Brandão no amor a uma alma pura, mirrada por incompreensões e injustiças até se reduzir a um graveto de alma, pode extrair do romance o conto do alfaiate, que é uma obra-prima. Outro primor, dado no mesmo romance, é a descrição da matança das águias que moravam na Fraga da Ermida. As peripécias da montaria levam-me à Idade Média por mão de Fernão Lopes» (João de Araújo Correia, Pontos Finais, Régua, Imprensa do Douro, 1975, 153).

Penso que não se poderiam escolher palavras que exprimissem melhor o valor da obra literária de Guedes de Amorim. Desafiamos as instituições reguenses, a começar pela Câmara Municipal e pelas Juntas de Freguesia de Sedielos e Vinhós, a promoverem a homenagem que ele merece. Também os franciscanos têm uma dívida para com este homem, que divulgou o seu ideal e a sua obra apostólica. Que não deixem cair em saco roto este contributo, que certamente tornou mais conhecida a obra franciscana em Portugal e no mundo. 

MANUEL COUTINHO

(1) Fotografia da enorme mole rochosa conhecida como "Fraga da Ermida". Aqui Guedes de Amorim situa a cena da matança das águias, no seu livro Aldeia das Águias. Por essa descrição foi-lhe atribuído o prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências. Em primeiro plano, podemos ver a Capela de S. Tiago, hoje com o seu terreno circundante muito melhorado.

 

 



publicado por MSC às 01:48
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3 comentários:
De Anónimo a 12 de Janeiro de 2006 às 20:29
Mais algumas achegas acerca da vida e obra de Guedes de Amorim.

Antonio Guedes de Amorim.Escritor e jornalista(Sedielos,Peso da Régua 26.10.1901-Lisboa 11.3.1979).Aos 18 anos de idade cosagrou-se ao jornalismo no Porto e a partir de 1935 em Lisboa.Aos 20 anos,depois de ter colaborado em jornais académicos e escrito pequenas peças de teatro,desfrutava já,no Porto,de renome literário.A par da reportagem cultivou a ficção e o genero histórico.Publicou contos,novelas,biografias e romances.Com o romance Aldeia das Águias,1939,obteve o Prémio Ricardo Malheiros e com Jesus Passou por aqui,1963,o Prémio Cervantes.O volume Francisco de Assis Renovador da Humanidade,1960,testemunha o seu itinerário espiritual.Foi acima de tudo um obsevador atento,que se serviu da reportagem para de um modo dorido tornar compreensível aos outros a realidade da paisagem humana e social do seu tempo.(Fonte:O GRANDE LIVRO DOS PORTUGUESES-Circulo de Leitores).

Entre outras coisas,disse dele URBANO TAVARES RODRIGUES numa apreciação do romance CASA DE JUDAS:
É este o Guedes de Amorim da minha preferencia: o narrador de pequenas misérias e raras grandezas que formam o tecido quotidiano da vida e da história.«Casa de Judas»,para mim o seu melhor romance e um dos que ficarão,no acervo da prova realista,como testemunho de uma época conturbada e complexa....
Um belo e forte romance,sóbrio,duro,verdadeiro,e escrito com rigor segundo uma interpretação dos factos e dos homens ciosa de verdade e,onde não será difícil descortinar uma opção socialista...
Parabéns a Guedes de Amorim por no-lo haver dado! Higino A.S.Coutinho
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(mailto:higino.coutinho@netvisao.pt)


De fjlacmorais@gmail.com a 7 de Junho de 2006 às 00:58
é com muita alegria mina que vejo um artigo referente a um familiar meu com a qualidade de Guedes de Amorim ser colocado na net, á disposiçao de todos. talvez ainda se recupere um dos maiores escritores portugueses, ainda que nao seja reconhecido por muitos...


De suzana coutinho a 17 de Junho de 2010 às 00:01
meu avô veio de Santa Quitéria para o Brasil, por volta de 1900. O nome dele era Manuel Guedes Coutinho, filho de José Justino Guedes Coutinho e de dona Joana Esteves Coutinho.
Alguém sabe alguma coisa sobre os Coutinhos de Santa Quitéria?
meu email é suzana_figueiredo@hotmail.com


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